O conjunto de Cantor
José Carlos Santos
Para cada
, defino o conjunto
do
seguinte modo:
- Seja I0 o intervalo [0,1].
- Subtraio a I0 o intervalo aberto central de comprimento
;
seja I1 o conjunto restante. Por outras palavras,
.
- O conjunto I1 é formado pela reunião disjunta de dois
intervalos fechados de [0,1]. A cada um destes intervalos
subtraio o intervalo aberto central de comprimento
. Seja
I2 o conjunto restante.
- Construo assim sucessivamente uma família decrescente
de sub-conjuntos de [0,1]. Cada In é uma
reunião disjunta de 2n intervalos fechados de [0,1] e In+1
obtém-se retirando a cada um destes intervalos o intervalo aberto
central de comprimento
.
- Defino:
Há uma passagem nesta definição cuja legitimidade exige uma
demonstração. Para que o quarto ponto faça sentido é necessário
demonstrar que o comprimento de cada um dos 2n intervalos fechados
cuja reunião disjunta forma In é maior de que
; caso
contrário, não faz sentido falar no «intervalo aberto central de
comprimento
». Para justificar a passagem, repare-se que o
conjunto I1 é obtido retirando-se de [0,1] um segmento de comprimento
; logo,
. Em seguida, obtém-se I2 retirando
de I1 dois segmentos de comprimento
, pelo que
. Vê-se então que se tem:
e então o que se quer mostrar é que:
Verifica-se facilmente
que esta expressão equivale a:
e esta última proposição é obviamente verdadeira.1
Usualmente, a expressão «conjunto de Cantor» refere-se ao conjunto
C1. Por isso, para designar este conjunto em particular vai ser
usada a letra C, sem qualquer índice.
Teorema: Para cada
tem-se:
- O cardinal de
é igual ao cardinal de
.
-
.
é compacto.
é perfeito (i. e. não tem pontos isolados).
é totalmente desconexo (i. e. os únicos sub-conjuntos
conexos são os que são formados por um único ponto).
Além disso, o conjunto C é formado pelos números de [0,1] que podem
ser escritos na base 3 usando unicamente os algarismos 0 e 2.
Demonstração: Cada In é reunião disjunta de 2n
intervalos fechados; sejam I(n,0), I(n,1), ...,
I(n,2n−1) esses conjuntos, numerados de modo que se k<l, então
qualquer elemento de I(n,k) seja menor do que qualquer elemento de
I(n,l). Vê-se então que:
 |
(1) |
Visto que os intervalos I(n,0), I(n,1),..., I(n,2n−1) são dois a dois
disjuntos, o comprimento de cada um deles não excede 2−n. Além disso,
os extremos de cada I(n,k) são elementos de
, pois
é um aberto e como tal está contido no
interior de I(n,k), enquanto que os extremos de I(n,k) estão na
fronteira. Repare-se que se
, então
, sendo os k(n) tais que
. De facto
, visto
que o comprimento dos intervalos converge para zero.
Seja
o conjunto das funções
de
em {0,1}. Vou construir uma bijecção B entre
e
. Seja
. Defino então B((an)n)
como sendo o único elemento do conjunto:
Para justificar que esta definição
faz sentido, veja-se que (1) implica que a família de intervalos
de que estamos a calcular a intersecção é decrescente. Como todos
estes intervalos são fechados, o princípio do encaixe dos intervalos
diz que a intersecção não é vazia. Finalmente, como o comprimento
dos intervalos tende para 0, a intersecção reduz-se a um ponto. Vê-se
pela definição de
que esse ponto está necessariamente
em
.
Para ver que a função B é injectiva, tomo dois elementos distintos
(an)n e (bn)n de
. Seja N o menor número natural tal
que
. Então
e
. Estes dois conjuntos são
disjuntos, de onde se tira que
. Quanto à
sobrejectividade, se
então
. Visto que cada I(n,k(n)) contém
I(n+1,k(n+1)), k(n+1)=2k(n) ou
k(n+1)=2k(n)+1. Vê-se então que
x=B((an)n), sendo an tal que
k(n)=2k(n−1)+an.2 Visto que o cardinal de
é igual ao cardinal de
, deduz-se que também é igual ao cardinal de
.
O conjunto
está contido em [0,1] e
é a reunião disjunta de um intervalo
de comprimento
com dois intervalos de comprimento
com quatro intervalos de comprimento
, etc. Logo, tem-se:
pelo que
.
O conjunto
foi definido como sendo a intersecção de uma
família de compactos. Logo,
é compacto.
Afirmar que
é totalmente desconexo é o mesmo que afirmar que
não contém nenhum intervalo ]a,b[. Para justificar isso, tomo um
. Então tem-se:
Esta reunião é disjunta. Se escolher n tal que 2−n<b−a,
então cada I(n,j) tem comprimento
inferior a b−a; logo:
Seja
. Vou mostrar que x não é um ponto isolado. Sei que:
Considero então as sucessões:
Os extremos de cada intervalo I(n,j) pertencem a
, pelo que
as duas sucessões são sucessões de elementos de
. Vê-se
facilmente que se tem:
-
-
pelo que ambas as sucessões (mn)n e (Mn)n convergem para x
e pelo menos uma delas não é constante a partir de uma certa ordem.
Logo, x não é um ponto isolado.
Finalmente, no caso do conjunto C, verifica-se facilmente que
é formado pelos números do intervalo [0,1] que se podem escrever
na base 3 usando unicamente os algarismos 0 e 2 nas n primeiras casas
decimais.3
Q. E. D.
Exercício: Mostre que se U é um aberto de
e
, então
.
Nota: Entre as propriedades mais interessantes do conjunto de
Cantor destacam-se as seguintes:
- Qualquer espaço métrico compacto, perfeito e totalmente desconexo
é homeomorfo a C.
- Se M é um espaço métrico compacto, então existe uma
aplicação contínua sobrejectiva de C em M.
Para a demonstração destes resultados, veja-se o livro General
Topology de S. Willard.
Notas
- ... verdadeira.1
- Também
se deduz desta expressão que
não pode ser maior do que 1.
- ....2
- De facto, se se introduzir em
a distância
, B é um homeomorfismo.
Isto mostra que os
são homeomorfos dois a
dois.
- ... decimais.3
- Repare-se que
, pois na base 3 o número 1
pode-se escrever sob a forma 0,222222222222…
2001–01–07